GESTÃO ALGORÍTMICA, BIOPODER E UBERIZAÇÃO DO TRABALHO: SUBJETIVAÇÃO, CONTROLE E (IM)POSSIBILIDADES DE RESISTÊNCIA NA GIG ECONOMY
Resumo
Objetivo: Investigar por que, na gig economy, motoristas da Uber em Fortaleza apresentam baixa dissidência coletiva e reduzida resistência organizada, examinando como a gestão algorítmica precariza o trabalho e naturaliza essa condição por meio de mecanismos de controle e indução de condutas.
Metodologia: Pesquisa qualitativa, baseada em entrevistas semiestruturadas com motoristas da Uber, observação de campo e análise textual. O material empírico foi tratado por procedimentos inspirados na Grounded Theory, com codificação e agrupamento em categorias analíticas articuladas às chaves teóricas da biopolítica, da governamentalidade e do capitalismo de plataforma, de modo a relacionar condições materiais, experiências subjetivas e dispositivos sociotécnicos de gestão.
Resultados: Os achados apontam jornadas extensas, dependência econômica, endividamento recorrente, isolamento estrutural e predomínio de atendimento automatizado, além de forte influência do aplicativo nas decisões cotidianas. Esse arranjo configura um regime de “biopoder algorítmico” que modula afetos, comportamentos e expectativas, desloca a autoridade do gestor humano para uma autoridade automatizada e, com isso, fragmenta vínculos entre trabalhadores, reduz a cooperação horizontal e dificulta a formação de solidariedade e ação coletiva.
Contribuições: O estudo oferece base empírica para a categoria “biopoder algorítmico” no contexto do Sul Global, evidenciando como a gestão algorítmica combina precarização material, individualização e isolamento para desmobilizar o conflito capital–trabalho. Ao explicitar os mecanismos pelos quais a autoridade automatizada opera na organização do trabalho, o artigo indica desafios concretos para a regulação jurídica e para estratégias sindicais e coletivas diante das formas contemporâneas de controle em plataformas digitais.
Palavras-chave
Texto completo:
PDFReferências
ABÍLIO, L. C. Uberização: A era do trabalhador just-in-time? Estudos Avançados, v. 34, n. 98, p. 99-114, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ea/a/VHXmNyKzQLzMyHbgcGMNNwv/. Acesso em: 3 fev. 2026.
ABÍLIO, L. C.; AMORIM, H.; GROHMANN, R. Uberização e plataformização do trabalho no Brasil: conceitos, processos e formas. Sociologias, v. 23, n. 57, p. 26-56, 2021. Disponível em: https://www.scielo.br/j/soc/a/XDh9FZw9Bcy5GkYGzngPxwB/?lang=pt. Acesso em: 3 fev. 2026.
ANTUNES, R. O continente do labor. São Paulo: Boitempo, 2011.
ANTUNES, R. O privilégio da servidão: o novo proletariado de serviços na era digital. São Paulo: Boitempo, 2018.
BOLTANSKI, L.; CHIAPELLO, È. O novo espírito do capitalismo. São Paulo: Martins Fontes, 2009.
BOURDIEU, P. A miséria do mundo. Petrópolis: Vozes, 2012.
BOURDIEU, P. O poder simbólico. Lisboa: Edições 70, 2011.
BRASIL DE FATO. Renda média de motoristas de aplicativos em Curitiba é a terceira pior entre 10 capitais: remuneração é menor que o salário mínimo. 22 jul. 2024. Disponível em: https://www.brasildefato.com.br/2024/07/22/renda-media-de-motoristas-de-aplicativos-em-curitiba-e-a-terceira-pior-entre-10-capitais-remuneracao-e-menor-que-o-salario-minimo. Acesso em: 3 fev. 2026.
CHARMAZ, K. A construção da Teoria Fundamentada: guia prático para análise qualitativa. Porto Alegre: Penso, 2009.
CHENEY-LIPPOLD, J. A new algorithmic identity: soft biopolitics and the modulation of control. Theory, Culture & Society, v. 28, n. 6, p. 164-181, 2011. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0263276411424420. Acesso em: 3 fev. 2026
CORBIN, J.; STRAUSS, A. Basics of qualitative research: techniques and procedures for developing grounded theory. 4. ed. Thousand Oaks: Sage, 2014.
CURCHOD, C. et al. Working for an algorithm: power asymmetries and agency in online work settings. Administrative Science Quarterly, v. 64, n. 1, p. 165-195, 2019. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0001839219867024. Acesso em: 15 jan. 2026.
DE STEFANO, V. The rise of the “just-in-time workforce”: on-demand work, crowdwork and labour protection in the “gig economy”. Geneva: International Labour Organization, 2015. (Conditions of Work and Employment Series, n. 71). Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=2682602. Acesso em: 30 dez. 2025.
DELEUZE, G. Post-scriptum sobre as sociedades de controle. In: DELEUZE, G. Conversações. Rio de Janeiro: Editora 34, 1992. Dispnível em: https://historiacultural.mpbnet.com.br/pos-modernismo/Post-Scriptum_sobre_as_Sociedades_de_Controle.pdf. Acesso em: 3 fev. 2026
FINE, J. Strengthening labor standards enforcement through partnerships with workers’ organizations. Politics & Society, v. 43, n. 3, p. 453-480, 2015. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0032329210381240. Acesso em: 13 jan. 2026.
FLEMING, P. The death of Homo Economicus: work, debt and the myth of endless accumulation. London: Pluto Press, 2017.
FLEMING, P. The human capital hoax: work, debt and insecurity in the era of Uberization. Organization Studies, v. 38, n. 5, p. 691-709, 2017. Disponível em: http://digamoo.free.fr/fleming2017.pdf. Acesso em: 2 fev. 2026.
FLEMING, P.; SPICER, A. Beyond power and resistance: new approaches to organizational politics. Management Communication Quarterly, v. 21, n. 3, p. 301-309, 2008. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0893318907309928. Acesso em: 11 jan. 2026.
FOUCAULT, M. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
FOUCAULT, M. O nascimento da biopolítica. São Paulo: Martins Fontes, 2008a.
FOUCAULT, M. Segurança, território e população. São Paulo: Martins Fontes, 2008b.
GILLESPIE, T. The relevance of algorithms. In: GILLESPIE, T. et al. (ed.). Media technologies: essays on communication, materiality, and society. Cambridge: MIT Press, 2014. p. 167-193. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/281562384_The_Relevance_of_Algorithms. Acesso em: 15 jan. 2026.
GLASER, B. G.; STRAUSS, A. L. The discovery of grounded theory: strategies for qualitative research. Chicago: Aldine, 2017.
GRAHAM, M.; WOODCOCK, J. The gig economy: a critical introduction. Cambridge: Polity Press, 2019.
GRAHAM, M.; WOODCOCK, J. Towards a fairer platform economy: introducing the Fairwork Foundation. Alternate Routes: A Journal of Critical Social Research, v. 30, p. 242-253, 2019. Disponível em: https://alternateroutes.ca/index.php/ar/article/view/22455/18249. Acesso em: 11 jan. 2026.
GROHMANN, R. Plataformização do trabalho: entre dataficação, financeirização e racionalidade neoliberal. Revista Eptic, v. 22, n. 1, p. 106-122, 2020. Disponível em: https://periodicos.ufs.br/eptic/article/view/12188. Acesso em: 10 jan. 2026.
GROHMANN, R. Trabalho digital: o papel organizador da comunicação. Comunicação, Mídia e Consumo, v. 18, n. 51, p. 166-185, 2021. Disponível em: https://revistacmc.espm.br/revistacmc/article/view/2279/pdf. Acesso em: 18 dez. 2025.
HAN, B.-C. A sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, B.-C. Psicopolítica: neoliberalismo e as novas técnicas de poder. Petrópolis: Vozes, 2017.
HARVEY, D. O neoliberalismo: história e implicações. São Paulo: Loyola, 2008.
HEERY, E. Trade unions and contingent labour: scale and method. Cambridge Journal of Regions, Economy and Society, v. 2, n. 3, p. 429-442, 2009. Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1505185. Acesso em: 10 jan. 2026.
IBGE - INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA. Cidades e Estados: Fortaleza (CE). 2024. Disponível em: https://cidades.ibge.gov.br/brasil/ce/fortaleza/panorama. Acesso em: 3 fev. 2026.
KALLEBERG, A. L. Precarious lives: job insecurity and well-being in rich democracies. Cambridge: Polity Press, 2018. Disponível em: https://www.tandfonline.com/doi/full/10.1080/00130095.2019.1665464. Acesso em: 17 jan. 2026.
KÄRREMAN, D.; ALVESSON, M. Resisting resistance: counter-resistance, consent and compliance in a consultancy firm. Human Relations, v. 62, n. 8, p. 1115-1144, 2009. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0018726709334880. Acesso em: 11 jan. 2026.
LEVINE, H.; PRIETULA, M. Open collaboration for innovation: principles and performance. Organization Science, v. 25, p. 1414-1433, 2014. Disponível em: https://papers.ssrn.com/sol3/papers.cfm?abstract_id=1096442. Acesso em: 19 jan. 2026.
LIMA, I. Quanto ganha um motorista de Uber? Taxa retida pelos aplicativos e valor mínimo são as principais demandas da categoria. Estadão, 19 maio 2025. Disponível em: https://mobilidade.estadao.com.br/mobilidade-para-que/motorista-de-uber-e-99-quanto-ganha-por-mes. Acesso em: 3 fev. 2026.
LUKES, S. Power: a radical view. 2. ed. London: Palgrave Macmillan, 2005.
MATEESCU, A.; NGUYEN, A. Algorithmic management in the workplace. New York: Data & Society Research Institute, 2019. Disponível em: https://datasociety.net/wp-content/uploads/2019/02/DS_Algorithmic_Management_Explainer.pdf. Acesso em: 10 jan. 2026.
MILKMAN, R.; OTT, E. New labor in New York: precarious workers and the future of the labor movement. Ithaca: Cornell University Press, 2014.
MOISANDER, J.; GROSS, C.; ERÄRANTA, K. Mechanisms of biopower and neoliberal governmentality in precarious work: mobilizing the dependent self-employed as independent business owners. Human Relations, v. 71, p. 375-398, 2018. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0018726717718918. Acesso em: 9 jan. 2026.
MOISANDER, J.; HIRSTO, H.; FAHY, K. Emotions in institutional work: a discursive perspective. Organization Studies, v. 37, n. 7, p. 963-990, 2016. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0170840615613377. Acesso em: 10 jan. 2026.
MOROZOV, E. La locura del solucionismo tecnológico. Buenos Aires: Katz, 2014.
MUMBY, D. K. Theorizing resistance in organization studies: a dialectical approach. Management Communication Quarterly, v. 19, n. 1, p. 19-44, 2005. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0893318905276558. Acesso em: 15 jan. 2025.
MUNRO, I. The management of circulations: biopolitical variations after Foucault. International Journal of Management Reviews, v. 14, p. 345-362, 2012. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/259911817_The_Management_of_Circulations_Biopolitical_Variations_After_Foucault. Acesso em: 9 jan. 2026.
NIETZSCHE, F. Humano, demasiado humano. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.
OSSEWAARDE, M.; REIJERS, W. The illusion of the digital commons: ‘false consciousness’ in online alternative economies. Organization, v. 24, p. 609-628, 2017. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1350508417713217. Acesso em: 10 jan. 2026.
PRASSL, J. Humans as a service: the promise and perils of work in the gig economy. Oxford: Oxford University Press, 2018.
ROSENBLAT, A. Uberland: how algorithms are rewriting the rules of work. Berkeley: University of California Press, 2018.
ROUVROY, A. Technology, virtuality and utopia: governmentality in an age of autonomic computing. London: Routledge, 2011. Disponível em: https://researchportal.unamur.be/en/publications/technology-virtuality-and-utopia-governmentality-in-an-age-of-aut. Acesso em: 04 jan. 2026.
ROUVROY, A.; BERNS, T. Governamentalidade algorítmica e perspectivas de emancipação: o díspar como condição de individuação pela relação? Revista Eco-Pós, v. 18, n. 2, p. 36-56, 2015. Disponível em: https://revistaecopos.eco.ufrj.br/eco_pos/article/view/2662. Acesso em: 7 jan. 2026.
SCHOLZ, T. Uberworked and underpaid: how workers are disrupting the digital economy. Cambridge: Polity Press, 2016.
SCHWAB, K. A quarta revolução industrial. São Paulo: Edipro, 2018.
SILVEIRA, S. A. da. Democracia e os códigos invisíveis: como os algoritmos estão modulando comportamentos e escolhas políticas. São Paulo: Edições SESC, 2019.
SILVEIRA, S. A. da; BRAGA, S.; PENTEADO, C. (ed.). Cultura, política e ativismo nas redes digitais. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2014.
SILVEIRA, S. A. da; SOUZA, J.; CASSINO, J. F. (ed.). Colonialismo de dados e modulação algorítmica: tecnopolítica, sujeição e guerra neoliberal. São Paulo: Autonomia Literária, 2021.
SOUZA, G. S. de; SABBAG, D. M. A.; ACHILLES, D. Governamentalidade algorítmica, sociedade incivil e capitalismo de vigilância: resistência pela produção do comum. Transinformação, v. 36, e249291, 2024. Disponível em: https://doi.org/10.1590/2318-0889202436e249291. Acesso em: 10 jan. 2026.
SRNICEK, N. Platform capitalism. Cambridge: Polity Press, 2016.
STANDING, G. O precariado: a nova classe perigosa. Belo Horizonte: Autêntica, 2025.
STANFORD, J. The resurgence of gig work: historical and theoretical perspectives. The Economic and Labour Relations Review, v. 28, n. 3, p. 382-401, 2017. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1035304617724303. Acesso em: 17 dez. 2025.
SUPIOT, A. La gouvernance par les nombres: cours au Collège de France (2012–2014). Paris: Fayard, 2015.
UBER. Fatos e dados sobre a Uber. Uber Newsroom Brasil, 2024a. Disponível em: https://www.uber.com/pt-BR/newsroom/fatos-e-dados-sobre-uber. Acesso em: 3 fev. 2026.
UBER. Mais de 120 milhões de usuários e 5 milhões de parceiros: Uber revela dados inéditos sobre seu impacto no país. Uber Newsroom Brasil, maio 2024b. Disponível em: https://www.uber.com/pt-BR/newsroom/mais-de-120-milhoes-de-usuarios-e-5-milhoes-de-parceiros-uber-revela-dados-ineditos-sobre-seu-impacto-no-pais. Acesso em: 3 fev. 2026.
WEISKOPF, R.; MUNRO, I. Management of human capital: discipline, security and controlled circulation in HRM. Organization, v. 19, n. 6, p. 685-702, 2012. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/1350508411416536. Acesso em: 28 dez. 2025.
WOOD, A. J.; GRAHAM, M.; LEHDONVIRTA, V. Good gig, bad gig: autonomy and algorithmic control in the global gig economy. Work, Employment and Society, v. 33, n. 1, p. 56-75, 2019. Disponível em: https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0950017018785616. Acesso em: 15 dez. 2025.
YEUNG, K. “Hypernudge”: Big Data as a mode of regulation by design. Information, Communication & Society, v. 20, n. 1, p. 118-136, 2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/303479231_'Hypernudge'_Big_Data_as_a_mode_of_regulation_by_design. Acesso em: 10 jan. 2026.
YEUNG, K. Algorithmic regulation: a critical interrogation. Regulation & Governance, v. 12, n. 4, p. 505-523, 2017. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/rego.12158. Acesso em: 2 fev. 2026.
YU, S.; PEETZ, D. Digital labour, platforms and the risks of precarious work. Labour & Industry: A Journal of the Social and Economic Relations of Work, v. 29, n. 1, p. 51-66, 2019. Disponível em: https://onlinelibrary.wiley.com/doi/abs/10.1111/bjir.12412. Acesso em: 17 dez. 2025.
ZUBOFF, S. A era do capitalismo de vigilância: a disputa por um futuro humano na nova fronteira do poder. Lisboa: Relógio D’Água, 2021.
DOI: http://dx.doi.org/10.26668/revistajur.2316-753X.v1i86.8223
Apontamentos
- Não há apontamentos.
Revista Jurídica e-ISSN: 2316-753X
Rua Chile, 1678, Rebouças, Curitiba/PR (Brasil). CEP 80.220-181


